Wednesday, July 07, 2010

hoje fui ao baú

Eu não sei nunca, quando é que a tua loucura
É a verdade que eu não posso suportar.
Eu não sei mesmo se a minha razão
Me prende o pensamento
E a tua é a ponte para voar.
Assustas-me e fascinas-me.
Em ti, há um olhar perdido no infinito;
Em mim, há a possibilidade de ver só até
Onde a vista alcança....
Quando te vejo sorrir, quando te vejo brincar
Como criança, quando falas de coisas que eu sinto,
Mas não posso entender,
É como uma música dum Mundo perdido, mas que foi...
É como aquele pássaro que existe,
Mas que existe porque a gente o espera...
Olho-te e tento compreender.
(Porque fui educado para compreender e não para olhar).
Mas quando, em certos momentos, como faíscas
E raios de uma outra luz, eu «vejo mais» ...
Ah! Lá, quando eu me dispo das minhas «verdades»,
Dos meus «uniformes» e das minhas «razões»;
Lá, nesse teu mundo, que é loucura, dor, alegria,
Beleza, ternura, violência, amor e delicadeza;
Aí, quando me encontro contigo, mesmo contigo,
Apetece-me abraçar-te, fazer-te festas nos cabelos...
E ficar assim... Só assim..
Cantar-te uma canção de embalar e dizer-te:
Deixa lá! Eu também não entendo...


Júlio Roberto

2 Comments:

At Friday, July 16, 2010, Anonymous Anonymous said...

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

 
At Friday, July 16, 2010, Anonymous Anonymous said...

Quem é que Abraça o meu Corpo

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que falla da morte,
Docemente, ao meu ouvido?

És tu, Senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

António Botto, in 'Canções'

 

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